Voltei Deprimido da China
- Serginho Neglia

- há 20 minutos
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Dia desses, um amigo me escreveu: "Serginho, te achei meio calado depois que voltou da China." Respondi que ele tinha razão. Outro me encontrou no Fronteiras e disse que sentiu falta de mais vídeos sobre o país. Para os dois, a resposta foi a mesma: voltei deprimido da China.
Depois da viagem, fiquei muito tempo em casa, lutando contra a "síndrome de vira lata", que eu já havia vivido em visita a outros países, mas que chegou ao nível hard após conhecer o "dragão oriental". Somente agora, meses depois, estou saindo com um pouco mais de frequência.
Essa é a verdade, amigos. A viagem me impactou de tal forma que quase travei. A China não tirou minhas esperanças no Brasil, a comparação é que quase fez isso.
Quando comecei a insistir com o Jota para que fosse à China, nem passava pela minha cabeça ir também. Minha intenção era que ele, um jovem já bastante viajado, ainda não havia cruzado para o Oriente. Meu argumento principal era simples: qualquer pessoa que queira estar minimamente atualizada sobre o que acontece de relevante no mundo precisa ver o que está acontecendo na China.
Na década de 1980, ainda em tempos de Guerra Fria, China e União Soviética eram destinos desejados por jovens revolucionários como eu, porém muito distantes da nossa realidade e extremamente controlados, hostis a estrangeiros, num mundo em que a espionagem era prática corriqueira entre as grandes potências. Nessa época, aprendíamos na escola a divisão do mundo em três blocos: o primeiro mundo (EUA, Inglaterra, França... ), o segundo mundo (URSS, Alemanha Oriental, China...) e o terceiro mundo, onde estavam Brasil, México e Índia e outros.
No final daquela década, mais precisamente em 1989, ano em que completei 20 anos e presidia a UMESPA, uma série de acontecimentos marcou minha geração: a Perestroika de Gorbachev, a queda do Muro de Berlim e as primeiras eleições presidenciais diretas no Brasil, após o fim da ditadura militar. Era uma fase muito intensa da minha vida. Já era pai, respirava política dia e noite, e tudo era superlativo e urgente.
De lá para cá, muita coisa mudou. Em 2009, aos 40 anos, vinte anos após o fim da União Soviética, realizei um grande desejo: fui à Rússia. O Jota estava comigo; era sua primeira viagem para fora do Espírito Santo.
Agora, também em novembro, fomos juntos à China.
Lishi Hutong, Dongcheng — Pequim "Uma rua, sete séculos. O Lishi Hutong, no coração histórico de Dongcheng, Pequim — onde portões imperiais, bicicletas digitais, comitês do partido e escolas de elite dividem o mesmo calçamento de pedra."
O Brasil evoluiu muito desde 1989. Tivemos a Constituição de 1988, o fortalecimento da democracia, o voto eletrônico, o Plano Real (quem viveu a hiperinflação e as constantes trocas de moeda sabe o peso disso). Avançamos em causas sociais, em inclusão, em respeito às diferenças. Milhões acessaram a universidade e um número expressivo superou a linha da miséria.
Mas, no mesmo período, a China deu um salto tão gigantesco que, quando olhamos com atenção, parece que estávamos parados enquanto ela corria. Me senti vivendo na Idade Média.
Enquanto vi uma nação pujante, unida, com um governo que planeja o futuro e aplica uma política de desenvolvimento que não deixa ninguém para trás, retornei para um país onde qualquer pequeno avanço conquistado pela população custa mais caro em privilégios para os políticos do que o benefício entregue ao povo. Na China, boa parte dos parlamentares brasileiros estaria na cadeia: lá, simplesmente não se admite que um político roube o povo. O interesse coletivo é levado ao extremo.
Na China, o governo constrói milhares de quilômetros de trem de alta velocidade e planeja as próximas décadas. No Brasil, cada obra pública é uma nova oportunidade para a corrupção. Enquanto o mundo debate como sobreviver à revolução tecnológica, nosso Congresso realiza suas sessões mais importantes de madrugada, quando a sociedade dorme e a vigilância é menor, na maioria das vezes para aprovar privilégios próprios, anular condenações e esvaziar direitos de quem mais precisa. Não é descuido, é escolha.
E quando a crise social que se aproxima finalmente chegar, muitos políticos farão o que alguns já estão fazendo: vão embora para os Estados Unidos, levando o dinheiro do povo.
Não foi a riqueza da China que me impressionou, foi a distribuição dela a olhos vistos, em infraestrutura e uma vida melhor para a maioria da população.

A viagem potencializou minha revolta, mas não aplacou minha resistência. Desde adolescente tento mudar as coisas à minha volta, e a esta altura não tenho caminho de volta. As renúncias profissionais e financeiras que fiz para manter meus ideais não se recuperam. Então sigo.
Não seria justo que a viagem mais incrível que fiz na vida não me trouxesse coisas boas. A China me marcou infinitamente, cada detalhe tinha uma magia que jamais esquecerei.
Por isso estou de volta, publicando, investindo no Tabuleiro Político, apostando na formação de lideranças mais comprometidas com o coletivo. Sem ilusões de grande sucesso. Mas convicto de que pequenas revoluções importam, e que ainda tenho uma ou duas para realizar. Fiquem atentos, pois muita reflexão virá pela frente!















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